No texto anterior comentei com vocês sobre alguns dos porquês de Plutão retrógrado não ser tão impactante, tanto em termos coletivos quanto individuais. Pela forma como entendo os planetas geracionais, apenas Urano tem a real tendência a realizar mudanças bruscas. Porém é sempre bom lembrar que as mudanças de Urano são bruscas porém demoradas. O ciclo planetário de Urano em um signo dura 07 anos, e geralmente o tempo de uma mudança radical dura sim todo esse tempo.
O significado de “brusco” pode ser tanto “rude” quanto “repentino”, e aqui eu penso nessa palavra mais no seu aspecto de “rude”. Urano não costuma nos pegar de surpresa, se prestarmos atenção em alguns sinais e se temos um bom diálogo interno com nós mesmos. Vejo muita gente interpretando suas mudanças individuais através do arquétipo de Urano afirmando que a alteração foi repentina demais e a pessoa foi “pega de surpresa”. Os gringos tem um termo melhor para demonstrar esse sentimento: “blindsighted”, que apesar da tradução ser “cego” ou “cegueira”, dependendo do contexto ele é melhor traduzido para “ponto cego”. Você lembra do ponto cego do seu carro? Para quem dirige, existem pontos cegos para o motorista que variam de tamanho de acordo com o carro que se dirige. Todo motorista tem que dirigir pensando que: 1) esse ponto cego existe, porque ele é literalmente uma parte física do seu carro e 2) se você se mexer dentro do carro a sua visão para esse ponto cego pode melhorar e você pode trocar de via com mais segurança, por exemplo. Urano para mim é isso, é o ponto cego do nosso carro. A gente não vê ele por uma questão de perspectiva, mas a gente sabe que ele existe, que ele “está ali”, e que dependendo do nosso movimento nós temos que estar conscientes daquela parte do nosso carro.
Porque a Astrologia lida com símbolos e formas de organização, tanto sociais quanto individuais, internas e emocionais, é inegável que o mapa nos mostra uma realidade nossa que às vezes é dura de interpretar. Muitas pessoas se encontram com as místicas com objetivos estranhos, que nos dias de hoje tem se resumido a conseguir dinheiro e/ou fama. “Abrir os caminhos” é uma pergunta ou pedido recorrente, e na grande maioria o caminho da pessoa tá lá escancarado na frente dela com nada além de chão asfaltado pra ela passar e a pessoa está olhando para árvore que está do lado da estrada achando que a árvore está no meio do caminho dela. E veja bem, a interpretação é “dura”, e não “difícil”. Nós temos uma visão de nós mesmos que às vezes o mapa não corrobora como a gente gostaria.
Urano gera um trânsito muito incômodo. O ponto cego do nosso carro parece que ganha vida própria e começa a sambar na nossa frente. Alguns de nós acha que o ponto cego do carro é um local que pode ser esquecido, que não tem nada de mais ali. Mas para outros, esse ponto cego é a melhor parte do carro, ou a mais bonita, ou aquilo que todo o resto do carro tinha que ser igual. O astrólogo Jeffrey Wolf Green1 trabalha muito com a ideia de opor Urano a Saturno. Saturno para ele seria a materialidade da vida, mas também um ponto de extrema consciência: é a realidade concreta em que vivemos (a sociedade, a família, os valores morais que nos moldam) e, portanto, Saturno É a nossa consciência, e o que conseguimos construir a partir das demandas do meio em que nascemos. Para esse autor, Saturno ainda carrega características tradicionais, em especial, o que restringe, pressiona o indivíduo ou a responsabilidade que carregamos. Urano desponta como a antítese de Saturno, o processo de individuação e libertação das amarras e realidades criadas por Saturno.
Para esse autor, a dicotomia entre Saturno e Urano explicaria por si só porque muitas pessoas resistem às transformações de Urano (ou não as enxergam). Saturno é a realidade no qual vivemos, e portanto nos acostumamos com ela. Muitos gostam dessa realidade. Por mais que tenha sido duro crescer e se desenvolver, Saturno concede a estabilidade e previsibilidade de uma vida tranquila. Mas Urano pode representar o que sempre sonhamos em ser, mas que por qualquer motivo durante a vida não conseguimos efetuar ou realizar essa parte de nós. Urano é o tal do processo de individuação, no qual requer uma jornada solitária para dentro de si mesmo para resgatar algo que sentimos falta mesmo quando nem sabemos verbalizar o que é. Um trânsito importante de Urano é sempre uma oportunidade de encontrar essa parte dentro de nós, e é muito difícil que a vida permaneça a mesma depois desse tipo de descoberta interna.
- Sobre o autor, o livro que tenho em mente sobre o tópico é “Uranus, freedom from the known”, lançado em 1988. Acredito que Green faz parte da vertente da Astrologia Uraniana nos EUA que ganha o nome de “Astrologia Evolucionária” (tradução literal minha de “Evolutionary Astrology”), e em grande medida suas interpretações sobre o campo parte de Plutão, Urano, Nodos Lunares e Saturno. Essa “Astrologia Evolucionária” também pode ser vista como ramo da Astrologia Moderna e Psicológica, além de uma interpretação estadunidense da Astrologia Uraniana. ↩︎




